
.Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
QUAL É A COR DA FELICIDADE?
Um fio de poste, dois passarinhos descansam as asas. Vou pela rua tentando pisar apenas num determinado desenho do passeio, imagino uma punição se caso eu escorregar o pé nas partes onde determinei que não se pode andar. O sol vai se pondo, o céu é azul triste e as luzes ainda não se acenderam. Toca num radinho ao longe a ave maria, pontualmente às seis da tarde. Nunca trago relógios no pulso, mal olho o do celular, pois assim saber ou não saber a hora certa se torna acaso do destino.
O dia tem cara de domingo, as ruas estão vazias. A sensação é de ter a cidade toda para despejar sentimentos profundos, contar minhas histórias às árvores enterradas no cimento e aos portões trancados. Passaram-se dois quarteirões enquanto eu relembrava momentos sem ordem cronológica. Coisas vão ficando espalhadas pelo caminho, jogadas no meio da rua: um beijo sem sentimento, corações disparados, palavras ditas a ermo, choros de felicidade em dueto, uma melodia bonita que tocou repetidas vezes no meu som, um cheiro de perfume meu que rememora uma finda amizade verdadeira. Aquelas roupas que saíram do meu gosto, a explosão de lembranças de dias cheios de vida, os sonhos utópicos de outrora, a timidez, cartões de natal, o sangue dos inúmeros cortes (não) físicos, um sentimento morto por mentiras, as lágrimas doídas e os vômitos de inconseqüência. No fim, o amor verdadeiro desenhando caminhos que eu não sei onde vão dar. Mas que, tenho certeza, serão caminhos floridos. E quando a noite cai num negro pontilhado por poucas estrelas, a vida parece querer recomeçar, como quem diz que cada segundo é uma nova aventura. Como quem diz que é possível recomeçar sempre, mesmo estando eternamente em processo.
É sempre bom dar uma volta pela cidade num feriado, para revoar as idéias, sentir a atmosfera. A metros de casa um poste se acende. Já já os fogos de artifício começarão a estampar o céu de cores, eu de camisa branca e velhas esperanças. Só ainda não decidi que cor de cueca usar.
Qual é a cor da felicidade mesmo?
*um dois mil e sete multicor para todos vocês. sei que desapareci, mas agora não mais. sentia falta daqui =D
.Sábado, Agosto 05, 2006
PUBLICIDADE, INSÔNIA E UMA PITADA DE LUCIDEZ
Tum tum, tum tum. Uma aranha bate na porta de madeira trabalhada em pátina branca. "A porta do céu?", penso. Eu vejo pelo olho mágico, ela tem olhos sedentos de fome, mas se parece com minha mãe quando voltou do hospital com meu irmão nos braços. Olho pra trás, três paredes me cercam, uma mulher nua me olha com ternura. Não é alguém que eu me lembre do rosto. Desconhecida, mas íntima. Um paradoxo. Ela chega perto, não parece sexy e nem deve saber que mostra as vergonhas, diz baixinho no meu ouvido: "O seu segredo está estampado no out door", depois chora loucamente até gritar: "Mas você não liga né? Não liga não liga". Quando a mulher deita no chão e dorme, imitando a posição fetal, é que eu passo a reparar na sala. Um refletor de luz branca está no chão, me olha como se quisesse me mostrar que a limpeza pode cegar. Um sofá branco está à direita, me sento e vejo uma porta de vidro que reflete minha imagem. Mas eu não me reconheço, estou com um rosto de turco que acaba de chegar do mercado. Dou tchau pra imagem, sempre gostei de testar a realidade com acenos. Ela responde com um gesto idêntico, sorrindo e balançando a cabeça. Era eu mesmo, um turco com cara de terrorista. Quando me distraio da imagem, a mulher já está dançando em cima de uma mesa, ela cantarola Damien Rice ao som de xaxado, ri como se se divertisse loucamente. Depois dá um grito alto e cai desmaiada. Só então olho pra porta de vidro de novo, estou sem camisa e gordo como uma baleia. A aranha está quase entrando pela porta branca, eu sei que ela vai me matar. Devagar abro a porta de vidro e pulo do alto, tão alto que parecia o infinito, 548º andar. .
Acordo com o susto. Sonhos imprestáveis. Já são 2:00.
Estou deitado no chão, enrolado no cobertor. Volto pra a cama, o sono não chega e vou beber água na cozinha. Olho pra janela e vejo um out door iluminado. Tenho de estar na agência às 6:30 pra finalizar a campanha da Yorker. Digo pra mim mesmo: "Calma, você não é uma retro-escavadeira". Vou ao banheiro mijar, meu pau parece bonito, simétrico. Nunca reparei nisso. Tenho vontade de transar, mas estou sozinho e não quero sair nem pra ir até a esquina. Pego o celular, SonyEricsson, comprei ontem e me senti sofisticado por ter um produto que ajudei a promover. Tenho 43 anos e sou daqueles caras que querem negar a idade. Na minha mente eu tenho 25 anos, malho, jogo futevôlei na praia no fim de semana e tenho a vida toda pela frente. Despertador ativado, não posso perder a hora. "Você não está em condições físicas de...". Pelo menos eu não trabalho de terno, odeio terno. Gosto de chinelos e de ficar sem camisa. Deito-me de novo, pode ser que o insight venha num sonho qualquer, daí então eu posso pular o brainstorm e ganhar mais algumas horas de sono. Sei que, por mais que meus neurônios recebam carga divina e concebam algo inovador, os clientes sempre vão querer modelos magrelas e photoshopadas. Eu devia ter tentado cinema ou qualquer profissão que precise mais de alma do que de carne. Mas é como Matrix: você come o bife, finge que tá gostoso. Dias depois você nem lembra mais como era o sabor da carne de verdade...
.Domingo, Julho 02, 2006
15 MINUTOS PARA PENSAR A VIDA
O que te incomoda?
Nada, por quê?
Seis pacotes de miojo em quatro dias. Você anda viciado nisso.
Ah, preguiça de quebrar a cabeça em algo mais elaborado, sei lá, assim sobra tempo pra fazer coisas mais importantes.
Meu terapeuta disse que quando a gente começa a se descuidar de aspectos básicos da vida, é porque os aspectos secundários já foram deixados de lado há tempos. E comida é um aspecto básico.
Hum, eu não sabia disso. Talvez comida pra mim seja aspecto secundário.
Não é não. Pelo menos pra nenhum ser humano normal.
Você faz sexo virtual. Não venha me falar de normalidade, tá?
Melhor do que estar sozinho o tempo todo que nem você e ficar imaginando que um dia vai encontrar alguém que te ature o resto da vida, que segure sua mão quando você morrer de velhice numa espreguiçadeira em frente às árvores numa primavera quente.
A diferença entre nós dois é que eu estou sempre pronto pra que algo de maravilhoso aconteça na minha vida.
Coisas maravilhosas na vida não são pra gente como nós. Você anda vendo muito romancezinho hollywoodiano ultimamente. A minha crença no "e eles viveram felizes para sempre" acabou no último filme da Cinderela.
Você que não sabe ver a beleza desse mundo.
Sei sim. E na televisão fica bem mais bonito, vai por mim. Não vou é ficar esperando um olhar carinhoso por aí pra começar um novo amor. Vou é tratar de não começá-lo.
A gente precisa das pessoas por perto, é um aspecto básico.
Que nada, a gente precisa é de um bom emprego, algumas cervejas e uns amores casuais..
* Mais uma tentativa frustrada de escrever sobre a mesma temática da Miranda July em Eu, Você e Todos Nós. Filme bacana, vai como dica!
.Terça-feira, Junho 13, 2006
PENSAMENTOS SOLTOS DE ONZE DA NOITE POR UMA CABEÇA DOLORIDA
Um nó desfeito, das minhas inseguranças enterradas na sacada do apartamento. Uma xícara de café, duas, três, e foram dez num dia frio de junho. Falam de Copa, de São João e de amor. Eu digo, displicentemente, medo.
Os temas sucumbem na minha cabeça, o rosa, a verdade, meu dinheirinho contado, minhas amizades eternas, a estética suja do wong kar-wai, meu cabelo crescendo, meus amores desconfiáveis. A vida está tão cheia que estou até emprestando algumas preocupações, só algumas, daquelas que a gente foge com uma música ali, um sonho acolá.
A gente adoece nesse mundo, nessa cidade suja, nesse barulho de ambulância: no começo você pensa: "alguém pode estar morrendo". Dias depois aquele é só mais um ruído banal, como um peido.
Às vezes eu me pergunto se as pessoas são cegas. Engarrafamento 6 da tarde, ruas cinzas, gente que não olha na sua cara (quando muito, repara na etiqueta da sua calça), anúncios de propaganda em todo lugar, que só não vendem a mãe porque soa amoral. Não, as pessoas não são cegas, elas só se acostumaram. Mas eu não, e vai demorar.
A minha vontade de mudar o mundo nunca foi grande. Hoje penso mais em chegar vivo em casa, com meus sonhos, possibilidades e sentimentos, tudo no lugar. Porque aqui eles vão te roubar tudo, até o revólver quando a única alternativa é mirar na orelha e apertar o gatilho. O que sobram? Fragmentos de lembranças, o famoso "eu era feliz e não sabia". Mas, a gente era feliz? E a gente sabia?
Não vou falar de amor. Vou dizer medo, displicentemente.
Não vou me matar. Até agora só fiz refletir, e não passarei disso. Das palavras? Não confio nem nas minhas, quanto mais nas dos outros. Só confiaria em juras de amor se as flores falassem.
Não vou falar de amor. Vou gritar medo.
Arrumar a cama para dormir, ouvir outra música da Legião e pensar nos dias vazios de amanhã.
E ter, por fim, medo de perder aquelas coisas ainda verdadeiras na vida..
.Sábado, Maio 27, 2006
NADA É 0800
A moça sorri quando me vê entrar. Deve ter uns 20 e poucos e ostenta leves traços de modelo suficientes para que desfilasse em loja de shopping. Sua expressão era de uma felicidade comedida, como se fosse uma amiga de anos e anos, e não me visse há décadas. Passou pela minha cabeça que eu poderia realmente conhecê-la, tal a animação que demonstrou ao me ver entrar.
"Posso ajudar?", ela diz. Fala como se tudo que estivesse naquele lugar fosse meu, e que ela estaria à disposição a todo o momento se eu precisasse de ajuda para carregar as coisas até o carro. Olhei ao redor, a decoração e o jogo de luzes e os pôsteres com modelos sarados e a música eletrônica alta na cabeça tomaram toda a minha atenção. A confusão era tanta que mal consegui ver os produtos (principais) que a loja vendia. Deveriam, talvez, ficar escondidos por trás de uma cortina vermelha como a grande atração daquele circo futurístico-hippie-neopunk-afro-euro-xiita brasileiro. As outras garotas de corpos bem feitos me lançaram um sorriso sexy. Se vestiam nos mesmos tons das paredes e do jogo de luzes, talvez para parecer o que realmente eram: parte da decoração.
Sempre que vou ao shopping, fico numa das mesas da praça de alimentação reparando se existe alguém naquele santuário pagão que saia de lá sem levar pelo menos um santinho ou terço, carregando uma sacola com uma imagem de nossa senhora-capitalista-1m80-55kg. Quando acho alguém, reavalio minhas concepções realistas e vejo que ainda há esperança. É nessa hora que olho pra cima da minha mesa e vejo um homem de olhos azuis sorrindo pra mim da sacola. Acabei levando aquela calça da vitrine, incentivado pela aspirante a modelo que soltou um "nooooossa ficou perfeita em você" quando saí do provador.
A gente é mesmo que nem aquelas velhas beatas que dariam a vida pra ter a virtude de Maria. O que mudam são apenas as Marias e as virtudes, coisas que a gente aceita que nunca vai conseguir. Afinal, ninguém é perfeito. Pelo menos sempre recebemos a bênção de encontrar uma imagem santa por aí, até quando é 18hs e o engarrafamento já passa dos 2km. Olhamos pra fachada do prédio e uma linda anjinha-sexy-olhos verdes nos lança um sorriso profundo. Depois disso, tudo parece bem mais tranqüilo.
Comi um big tasty, fingindo que aquilo era carne, imitando uma cena do The Matrix. 3R$ de estacionamento, 89R$ a calça, 12,25R$ a promoção do big tasty. E de brinde o ego inflado por ter esquecido da vida e dos problemas numa ensolarada tarde de domingo. Fazer o quê? Nada é 0800.
.Sábado, Maio 13, 2006
SOBRE A SERRA, A VIDA E MIM
No vidro da janela, uma paisagem louca passando com desfoques de movimento. Eu relembrava aqueles momentos de quando se é criança e a janela do carro parece uma tela de TV mágica, em que as árvores viram rabiscos de giz de cera. Estávamos subindo a serra, papai discutia política comigo, sempre defendendo o Lula com bons argumentos, enquanto comia aqueles biscoitos de polvilho com cheiro enjoativo. Eu ouvia, discordava algumas vezes, em outras não sabia o que dizer por ter um conhecimento raso sobre o assunto. Minhas opiniões eram, na verdade, impressões. Fiquei com vontade de saber as coisas, de ser um desses heróis de filme de ação que parecem ter Phd em Harvard e, ao mesmo tempo, uma faixa preta de karatê.
Eu sentia uma paz na serra, mesmo quando não descia do carro e a paisagem parecia saída da televisão. Dava sempre vontade de pisar na terra, sentir o vento e ter um caderno pra escrever algo, talvez uma palavra apenas que representasse o meu sentimento. Eu sou ligado com essas coisas de natureza. Quem me vê acha que não, pensa que sou um playboy fútil que compra roupas demais. Mas há algo em mim que faz perceber que árvores e terra e céu são algo além de gases, rochas porosas e floema.
Interessante, era talvez a centésima vez que eu subia aquela serra de carro. Centésima, literalmente. Um, dois, três...Dezenove anos. Passei a vida subindo aquela serra, indo ver vovó, esperando que ela fizesse biscoito quebra-quebra. É bom perceber que mudei, mas também é bom ter a certeza de que continuo aquele garotinho loiro sorridente. Existe uma essência humana na gente que não muda, nunca. E agora eu me orgulhava de saber lidar com ela, de ter a capacidade de mudar e ainda ser sempre eu mesmo.
Não sei se alguém reavalia sua vida aos dezenove anos. Talvez seja pouco tempo demais, afinal a linha da vida na minha mão direita é longa, me disseram que por isso eu ainda vou viver muito. Mas nunca se sabe. Eu perdi uma amiga de quinze anos de idade e uma tia no mesmo ano. Depois dessas coisas comecei a acreditar que os sentimentos bons atravessam os mundos, dos mortos e dos vivos. Que as amizades, amores, irmandades que a gente planta aqui não se desfazem com a morte do corpo. A partir daí comecei a ser mais tranqüilo, a levar a vida no meu ritmo e a me preocupar em sorrir pras pessoas, ser mais carinhoso com elas, nem que seja no olhar e nas palavras.
O carro ia rápido, deitei no colo da minha irmã pra não enjoar. Minha mãe sempre dizia que quando eu era pequeno, perguntava umas mil vezes se estávamos chegando, toda vez que íamos pra casa da vovó. Talvez eu tinha perguntado umas noventa e nove até aquela hora.
- Mãe, tá chegando?
Ok, agora já eram cem vezes..
.Domingo, Abril 23, 2006
UM AMOR POSSÍVEL
Historinha ludibriada por Luíza horas antes de encontrá-lo, quando ouvia Jorge Ben deitada na cama:
- Olá, você é o Túlio?
- Sim, sou eu. Camiseta rosa! Sou tão distraído que só agora vi que era você.
- Rá rá. Chapéu preto. Fiquei alguns minutos ali fora pensando no que ia te dizer primeiro. Resolvi não tentar joguinhos e dizer o óbvio.
- Senta! Você é exatamente como eu pensava pessoalmente. Apesar das fotos, a gente nunca sabe como a pessoa é de verdade antes de trocar a primeira palavra.
- É mesmo. Eu ficava brincando de pensar como você seria. Inventei tantas possibilidades, que acho que acabei acertando.
Conversaram durante um tempo, mas não havia muito que falar. Já haviam dito tudo nos chats nas noites de terça e sexta e nos fins de semana. Ela: escritora. Ele: dono de uma revenda de autopeças. Razão e emoção.
Foram para o apartamento dela. Colocou play na "Sandália de prata" naquele fim de tarde. Ela pegou duas cervejas no freezer. 20 minutos depois estavam transando no sofá. Acordam no outro dia, ele a beija com mau hálito e pede desculpas. Combinam de se encontrar de novo. Ela fecha a porta e sente o coração em paz. Amor.
Historinha ludibriada por Túlio umas dúzias de minutos antes de encontrá-la, enquanto subia no elevador de seu prédio:
- Oi. Júlia?
- Oh, Túlio! Chapéu preto! Eu acabei de chegar, mas não te vi.
- Eu estava no banheiro. Cheguei mais cedo.
- Você não quer sentar? Conhaque? Rá rá. Você me disse que só bebe conhaque, lembra?
- É. E você Martini. Pensei que escritoras gostassem de beber vinho.
- Mas acontece que mulheres interessantes bebem Martini. E hoje eu quero ser muito mais uma mulher interessante do que uma escritora.
Abriu a porta do quarto do motel. Já se beijavam dentro do carro e demorou para que, enfim, chegassem à cama com lençol vermelho e um grande espelho no teto. Uma, duas, três, "Ahhh, nós somos uma máquina". Ele a deixou em casa às cinco e meia e a observava atravessar a rua e entrar na portaria. Ficou um minuto e meio parado no carro repassando os acontecimentos. Enfim acelerou o carro e o coração bateu junto. Amor.
Historinha ludibriada pelo escritor deste texto minutos antes de ir almoçar, sentado em frente ao computador e conversando no MSN, considerada supostamente verdadeira:
- Túlio?
- Júlia? Não me chamo Túlio, desculpa ter inventado outro nome. Teixeira, prazer!
- Oh, não tem problema. Eu sei como essas coisas de internet são perigosas. Prazer, Ivonete!
- Vou ser sincero com você. Eu queria só alguém pra conversar uns papos picantes no chat. Como você me deu trela, eu também dei.Seria legal a gente colocar nossos papos em prática, não?
- Ah, seu safado!
10 minutos para chegarem no motel. Entram no quarto, fazem um papai-mamãe sem muita química. Ele a deixa em casa e pensa que será a última vez que irá vê-la. Ela não gostou do cheiro dele. Em 30 minutos voltam a se ver. "Engraçado, ele fica mais bonito na webcam". Ele puxa assunto: garotão do Rio diz: e aí gatinha, como está? Interatividade. Tecnologia. Amor?
.Domingo, Abril 02, 2006
S'IL VOUS PLAÎT, DEUX TASSES D'AMITIÉ
Caramba, quanto tempo! Senta aí, toma um café. Vamos falar do expressionismo alemão. Nos filmes não existiam linhas retas. Na minha vida também é assim. Vai um cigarro, eu tossindo. Uma foto da Marilyn na parede me faz lembrar da Courtney Love. Porque? Não sei.
Vou comer um croissant. O garçon traz, ele fala da vida. Como está? Não se casou. Tá morando num albergue em Viena. Eu num banco da Piazza San Pietro.
As mulheres que foram e voltaram das nossas vidas. Mães, irmãs, amigas, avós, putas, amores. Todas nos deixaram. Só a amizade é que faz você reconhecer alguém 21 anos depois num país onde as pessoas não se olham. É bom ter a certeza de que algumas pessoas, por mais que o tempo passe, nunca vão se tornar estranhas.
Sabe, eu imaginava a minha vida de um modo hoje um tanto utópico, ele diz. Eu também, mas a minha vida hoje é que parece utopia.
Nós rimos. Eu falo de arte tecnológica. Minha tese de doutorado. Ele diz que não prestava atenção nas aulas da graduação. Nessa época, a única certeza que eu tinha na vida era profissional. Hoje é uma das muitas dúvidas.
Falo do último livro da Filipa Melo. Ela fala de coisas profundas, ele diz. Sim, e eu reparo que ele não mudou nada no modo de gesticular. Determinadas coisas são imutáveis. Adoro observar pessoas, passo a tarde lendo em frente à Basílica. Lendo as pessoas. Ainda vou escrever um livro. Eu dizia isso com 17 anos. Mas tudo se perdeu, inclusive o tempo.
Falamos daquela época, da inocência de achar que a vida seria só Paraná, São Paulo e Espírito Santo. Nós costumávamos andar nelas o dia todo tocando as campainhas.
E o pessoal? Ele pergunta. Júlio se casou, têm trigêmeos. A Flávia morreu de acidente de carro. Foi triste, fui ao enterro. A Teresa se tornou produtora de cinema, tá na Alemanha gravando um filme com a Natalie Portman. E o resto eu não sei, mas ainda tá na minha memória com um frescor imenso.
Eu me casei com a Ju. É eu fiquei sabendo, ele diz. Te mandei um convite. Não pude ir. Nos separamos há 9 meses. O Fabinho mora comigo, é um garoto lindo, cê precisa conhecer! Então vocês tiveram filhos? Tivemos um, ele tá com 14 anos. Quero conhecê-lo algum dia.
"Le billet, s'il vous plaît". Queria voltar ao Brasil. Eu também, sinto falta do pôr do sol de Minas, mas ainda ficarei aqui mais um ano. E depois? Eu pergunto. Depois não sei, vou ao sabor do vento. Eu gosto disso, eu digo, colocando as mãos na mesa. Foi bom te encontrar, eu precisava de uma dose de passado. Eu também, minha vida aqui tava um pouco solta demais, sem raiz. Vê se não some por aí mais 21 anos. Eu nem terei mais tanto tempo assim pra sumir, mas anota meu telefone. Vou te ligar, vamos nos ver de novo. Vamos sim, tenho certeza. Dê um beijo no Fabinho. Pode deixar.
Um abraço forte, que aqueceu meu coração. Seguimos por ruas opostas. O melhor amor que existe é a amizade.